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quarta-feira, 30 de maio de 2012

A velha corcunda e a procissão dos gatos

Atualização - 30/3/2013

Não tenho visto esta velha, acho que ela morreu, não tem mais aparecido para alimentar os gatos

Márcia, que bom vc ter visto pessoalmente esta figura. Tais momentos, inesquecíveis, passam a habitar o nosso imaginário para o resto da vida tão marcantes são. Sim, são pessoas reais, eu que não consigo vê-las assim, fico sempre em dúvida se são personagens construídos de forma inconsciente para desta forma distoar desse nosso mundinho, dessa nossa mesmice cartesiana. Seria interessante se as pessoas começassem a trazer para cá estas figuras encantadoras.

Enquanto lia a crônica, lembrei-me que aqui nas redondezas mora uma velha corcunda. Todos os dias, exatamente à meia noite, ela passa aqui na rua e, atrás dela, uns 100 gatos. Ela conduz um enorme saco de juta nas costas, contendo em seu interior alimento para os gatos, daí a procissão dos bichos. Ah, ela anda em companhia de um cão, havendo total respeito entre este e os gatos. Dias atrás, por acaso, ao parar numa esquina para atravessar a avenida, o sinal estava aberto e ela gritou "Rodrigo, cuidado com o carro". Olhei ao redor, pois pensei tratar-se do marido dela ou de algum neto. Era um gato! Chamou-me a atenção o fato de que o felino entendeu o que a velha havia dito. "Rodrigo, cuidado com o carro!"

O seu ritual se repete todos os dias, exatamente à meia noite. Será que ela tem um despertador em casa. A qualquer horas dessas a seguirei para matar essa curiosidade. Ela é infalíviel. Não atrasa. Os gatos agradecem a pontualidade britância. Meia hora antes do horário marcado, começa a algazarra dos felinos, que acaba em grande festa com a chegada da velha de ar soturno e cabisbaixo.

Como se eu fosse parte deste estranho enredo, costumo usar o barulho dos gatos para acertar os ponteiros de um relógio que mantenho perto do forno microondas. Será mesmo que somos reais ou meras peças de uma peças de teatro, alguma coisa que transita entre o real e o transcendente, é isso que sinto quando penso naquela figura, assim meio deslocado.